
Passaram-se meses e as conversas haviam desaparecido. Contudo a ligação que haviam criado era forte demais para ser esquecida. Tiago exercia um poder inexplicável cada vez que a olhava nos olhos, cada vez que pronunciava uma palavra dirigida a ela. Um poder que Sofia jamais poderia esquecer, tal como as memórias das noites intermináveis em que as palavras fluíam naturalmente. Aquilo que se poderia definir como uma atracção que os invadiu durante os primeiros meses desaparecera. Cada um seguiu a sua vida na procura de uma cumplicidade física e psicológica que não estivesse rodeada pelo mistério. No fundo eles sempre tiveram uma cumplicidade psicológica, uma cumplicidade difícil de encontrar nas suas idades, mas o relacionamento físico fora algo que ficara apenas no imaginário de cada um. Assim nada demais acontecera, mas Sofia acreditava que ambos haviam sido marcados por aqueles momentos.
Certa noite esse imaginário foi partilhado e com ele um jogo de sentimentos foi despertado, um turbilhão de memórias e questões inoportunas pois o passado ficara lá atrás e já nada havia a fazer para alterar esse facto. Tiago bateu a porta, tinha a certeza que a essa hora Sofia já estaria em casa, ouvia os passos cada vez mais próximos de si. Para sua surpresa a porta abriu-se naturalmente a Sofia esboçava um sorriso sincero ao mesmo tempo que o convidava a entrar. A sala tinha tons quentes, decorada com alguma atenção embora o estilo fosse simples. A música era calma e o ambiente era marcado pela média luz. Havia almofadas no chão, velas de cheiro, telas abstractas que contrastavam com os tons vermelhos e laranja. Tiago absorvia todo o espaço e ao mesmo tempo tomava consciência que Sofia passava ali grande parte do seu tempo livre. Conseguia imaginá-la deitada no meio de todas aquelas almofadas, com uma bebida quente ainda a fumegar na mesa de apoio, um lápis na boca a olhar atentamente para um papel de desenho enquanto os traços surgiam pouco a pouco na mente de Sofia. Apesar de existir sempre um lado misterioso na personalidade de Sofia, Tiago conseguia estar a falar com ela e desvendar o seu próximo gesto. "Tiques" que ele conhecia tão bem e que faziam sorrir Sofia cada vez que por ele eram descritos.
De volta ao presente, constatou que Sofia já se tinha dirigido para a cozinha com o intuito de prepara a sua especialidade, um café com um toque de canela, baunilha e chocolate que libertava um aroma indescritível associado a um prazer extremo. Com muitas histórias em comum, decerto a conversa iria durar grande parte da noite, pelo que não tinha pressa em compreender o objectivo daquela visita. Contudo as questões começavam a surgir, sem respostas que a saciasse.
A conversa surge espontaneamente e acabam por rir à gargalhada ao recordar o passado. Como era atractiva aquela idade em que existiam dezenas de planos traçados, projectos para um futuro que se enquadravam nas expectativas daqueles que os rodeavam mas que ao mesmo tempo os faziam sonhar. Onde podiam sair com os amigos sem a preocupação de ter de acordar cedo para ir trabalhar no dia seguinte, isto é, sem o stress de um quotidiano. Agora as suas vidas já tinham sido delineadas, alguns sonhos dissipados e outros concretizados, contudo nada lhes dava mais prazer do que recordar os bons momentos.
Um desses sonhos era o de Sofia escrever um livro contando as peripécias da sua vida, os bons e os maus momentos, onde aprendera a crescer de tal forma que acabou por sentir-se madura demais perante algumas atitudes dos que a rodeavam. Pretendia no fundo, escrever as lições de vida que aprendera ao contornar os obstáculos que surgiam no seu caminho. Mas esse sonho tivera de ficar para trás. Agora mal tinha tempo para ficar em casa a desfrutar da calma e harmonia do seu cantinho cuidadosamente decorado. Entrara na rotina de sair dos turnos no hospital, beber um café com os amigos, preparar as coisas para o dia seguinte e passear um pouco à beira mar. Era assim que conseguia abstrair-se da vida profissional, o mar sempre lhe transmitira tranquilidade, ao observar as ondas que se dissolvem na areia era como se os seus problemas também fossem arrastados para longe.
Esta frase fizera Tiago recordar como o silêncio dizia tanto de Sofia, sempre a pensar, o que a tornava enigmática para alguns, tímida para outros, ou simplesmente calada para os que menos a conheciam. Ela fica corada ao olhar para ele, este era um dos seus pequenos defeitos embora o considerasse na maioria das vezes uma qualidade. Mas desta vez o seu olhar tinha ficado aprisionado pelos olhos de Tiago, um jogo de cumplicidade que haviam travado tantas vezes e que agora suscitava uma espécie de desejo passado. Um ar inocente e ao mesmo tempo escondendo tanto mistério por detrás. No fundo Tiago fascinava-a de uma forma diferente que ela nunca soubera explicar e aquela visita despertara esse mesmo fascínio. Apeteceu-lhe abraçá-lo, contudo esboçou apenas um sorriso malandro, enquanto procurava seguir o raciocínio da conversa. Como ele a conseguia distrair…
Havia altura sem que desejava receber uma mensagem de Tiago a convidá-la para irem dar uma volta, ou simplesmente beber um café. Mas sabia que isso jamais iria acontecer, tratava-se de uma amizade restrita a determinadas atitudes, porventura haveria altura sem que tudo era “normal” mas as perspectiva da situação nunca coincidiam e para não gerar conflitos o melhor era limitar a intimidade ao campo dos jantares com os amigos em comum. Dai a surpresa de Sofia ao receber naquela noite de fim de Verão a visita de Tiago.
Voltava a si, mas a imagem continuava perdida no tempo, Tiago fixava os seus olhos com um olhar travesso...
Certa noite esse imaginário foi partilhado e com ele um jogo de sentimentos foi despertado, um turbilhão de memórias e questões inoportunas pois o passado ficara lá atrás e já nada havia a fazer para alterar esse facto. Tiago bateu a porta, tinha a certeza que a essa hora Sofia já estaria em casa, ouvia os passos cada vez mais próximos de si. Para sua surpresa a porta abriu-se naturalmente a Sofia esboçava um sorriso sincero ao mesmo tempo que o convidava a entrar. A sala tinha tons quentes, decorada com alguma atenção embora o estilo fosse simples. A música era calma e o ambiente era marcado pela média luz. Havia almofadas no chão, velas de cheiro, telas abstractas que contrastavam com os tons vermelhos e laranja. Tiago absorvia todo o espaço e ao mesmo tempo tomava consciência que Sofia passava ali grande parte do seu tempo livre. Conseguia imaginá-la deitada no meio de todas aquelas almofadas, com uma bebida quente ainda a fumegar na mesa de apoio, um lápis na boca a olhar atentamente para um papel de desenho enquanto os traços surgiam pouco a pouco na mente de Sofia. Apesar de existir sempre um lado misterioso na personalidade de Sofia, Tiago conseguia estar a falar com ela e desvendar o seu próximo gesto. "Tiques" que ele conhecia tão bem e que faziam sorrir Sofia cada vez que por ele eram descritos.
De volta ao presente, constatou que Sofia já se tinha dirigido para a cozinha com o intuito de prepara a sua especialidade, um café com um toque de canela, baunilha e chocolate que libertava um aroma indescritível associado a um prazer extremo. Com muitas histórias em comum, decerto a conversa iria durar grande parte da noite, pelo que não tinha pressa em compreender o objectivo daquela visita. Contudo as questões começavam a surgir, sem respostas que a saciasse.
A conversa surge espontaneamente e acabam por rir à gargalhada ao recordar o passado. Como era atractiva aquela idade em que existiam dezenas de planos traçados, projectos para um futuro que se enquadravam nas expectativas daqueles que os rodeavam mas que ao mesmo tempo os faziam sonhar. Onde podiam sair com os amigos sem a preocupação de ter de acordar cedo para ir trabalhar no dia seguinte, isto é, sem o stress de um quotidiano. Agora as suas vidas já tinham sido delineadas, alguns sonhos dissipados e outros concretizados, contudo nada lhes dava mais prazer do que recordar os bons momentos.
Um desses sonhos era o de Sofia escrever um livro contando as peripécias da sua vida, os bons e os maus momentos, onde aprendera a crescer de tal forma que acabou por sentir-se madura demais perante algumas atitudes dos que a rodeavam. Pretendia no fundo, escrever as lições de vida que aprendera ao contornar os obstáculos que surgiam no seu caminho. Mas esse sonho tivera de ficar para trás. Agora mal tinha tempo para ficar em casa a desfrutar da calma e harmonia do seu cantinho cuidadosamente decorado. Entrara na rotina de sair dos turnos no hospital, beber um café com os amigos, preparar as coisas para o dia seguinte e passear um pouco à beira mar. Era assim que conseguia abstrair-se da vida profissional, o mar sempre lhe transmitira tranquilidade, ao observar as ondas que se dissolvem na areia era como se os seus problemas também fossem arrastados para longe.
Esta frase fizera Tiago recordar como o silêncio dizia tanto de Sofia, sempre a pensar, o que a tornava enigmática para alguns, tímida para outros, ou simplesmente calada para os que menos a conheciam. Ela fica corada ao olhar para ele, este era um dos seus pequenos defeitos embora o considerasse na maioria das vezes uma qualidade. Mas desta vez o seu olhar tinha ficado aprisionado pelos olhos de Tiago, um jogo de cumplicidade que haviam travado tantas vezes e que agora suscitava uma espécie de desejo passado. Um ar inocente e ao mesmo tempo escondendo tanto mistério por detrás. No fundo Tiago fascinava-a de uma forma diferente que ela nunca soubera explicar e aquela visita despertara esse mesmo fascínio. Apeteceu-lhe abraçá-lo, contudo esboçou apenas um sorriso malandro, enquanto procurava seguir o raciocínio da conversa. Como ele a conseguia distrair…
Havia altura sem que desejava receber uma mensagem de Tiago a convidá-la para irem dar uma volta, ou simplesmente beber um café. Mas sabia que isso jamais iria acontecer, tratava-se de uma amizade restrita a determinadas atitudes, porventura haveria altura sem que tudo era “normal” mas as perspectiva da situação nunca coincidiam e para não gerar conflitos o melhor era limitar a intimidade ao campo dos jantares com os amigos em comum. Dai a surpresa de Sofia ao receber naquela noite de fim de Verão a visita de Tiago.
Voltava a si, mas a imagem continuava perdida no tempo, Tiago fixava os seus olhos com um olhar travesso...

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